Justificativa

Este trabalho é fruto de minhas experiências afetivas, dentro do Projeto Território, Museu Mineiro, 2007.
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Aqui, nada é definitivo. Todos os textos e imagens estão sujeitos a transformações, mutações, amputações ou acréscimos que possam, de alguma maneira, contribuir para a construção dos personagens que vão tomando forma e ganhando vida própria. De alguns deles, já ouço as vozes; de outro, me chega o cheiro.
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Primeiro esboço para uma carta escrita por mim, Dom José - Príncipe do Brasil

Este retrato (abaixo, à esquerda) remete, inclusive, aos conceitos de luxo, pompa, rigor e poder; entretanto, ele não revela nem parte do padecimento, de que fui vítima, por ter nascido um príncipe. O pintor, obviamente, favoreceu minha pele que, de fato, além de não ter sido tão rosada, era acometida de pequenas lesões de fundo psicossomático. Esta pele, constituída de pó-de-arroz e refeita em tinta, ornamenta a vida humana que tive; imortalizando-me de forma sublime.
Fui um menino melancólico, confinado em salões forrados de adamascados, veludos, sedas e brocados e, ao alto, coroados por afrescos exuberantes que ilustravam o pensamento de então. Sobre tapetes do oriente, ensaiei meus primeiros passos das danças que, no futuro, viriam a encantar os olhares e despertar o desejo de jovens pretendentes.
Já hoje, de onde vos escrevo, descoroado estou – o que me dá o direito de lhes confidenciar sobre minha infância quando, debruçado sobre a balaustrada do meu balcão, sonhava em ser um daqueles jovens criados que, furtivamente, se deleitavam sobre os galhos carregados de jabuticaba; corriam pelo pátio, deixando atrás de si, um rastro de poeira saída dos seus corpos; brincavam de esgrima, usando pequenos galhos como espadas disformes e, no carnaval, orgulhosos, pediam-me a pompa emprestada para serem príncipes.

interlóquio 9


A travessia de Pedro Veneroso (o 2º investigador)


Apesar de ter nascido em outubro, Pedro não fazia distinção entre este ou qualquer outro dos meses do ano.


Pedro V. Nasceu em Paris, em 1987, ano em que a cidade abriu mais de dezenove novos Cafés. Considerando que, antes disso, já abrigava mais de novecentos desses estabelecimentos socializantes, a abertura dos novos dezenove, fez com que a cidade fosse invadida por um aroma irresistível. Movidos por tal bouquet, o Senhor e a senhora V., passaram a sair todas as noites, acompanhados do jovem Pedrinho e da pequena matilha de cães perdigueiros, pelas ruas da Cidade Luz.


Foi em uma dessas andanças, que descobriram um discreto restaurante espanhol, localizado no Cartier Crisântemo. Era uma das raras casas noturnas que permitiam a entrada de animais – um achado! O restaurante de nome muy incomum (“Tautologia”) servia uma das mais saborosas paellas que já se pôde degustar fora do país das castanholas, e, foi onde Pedrinho aprendeu a apreciar tal prato de sabor tão peculiar e aspecto um tanto ‘complexo’. O jovem, além de, no futuro, ter se especializado em culinária mediterrânea, aproveitava cada centímetro do espaço das cozinhas onde trabalhou em sua maturidade, plantando, dentro delas, dezenas de ervas aromáticas, flores comestíveis, etc. Aproveitava, inclusive, os parapeitos das janelas, onde cultivava, com raro cuidado, variadas espécies de crisântemos.


Desafortunadamente, no dia 23 de um mês desconhecido, do ano 2087, data em que completara um século de existência, falece Pedro. Causa da morte: envenenamento por suco de tomate.

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