Justificativa

Este trabalho é fruto de minhas experiências afetivas, dentro do Projeto Território, Museu Mineiro, 2007.
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Aqui, nada é definitivo. Todos os textos e imagens estão sujeitos a transformações, mutações, amputações ou acréscimos que possam, de alguma maneira, contribuir para a construção dos personagens que vão tomando forma e ganhando vida própria. De alguns deles, já ouço as vozes; de outro, me chega o cheiro.
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Primeiro esboço para uma carta escrita por mim, Dom José - Príncipe do Brasil

Este retrato (abaixo, à esquerda) remete, inclusive, aos conceitos de luxo, pompa, rigor e poder; entretanto, ele não revela nem parte do padecimento, de que fui vítima, por ter nascido um príncipe. O pintor, obviamente, favoreceu minha pele que, de fato, além de não ter sido tão rosada, era acometida de pequenas lesões de fundo psicossomático. Esta pele, constituída de pó-de-arroz e refeita em tinta, ornamenta a vida humana que tive; imortalizando-me de forma sublime.
Fui um menino melancólico, confinado em salões forrados de adamascados, veludos, sedas e brocados e, ao alto, coroados por afrescos exuberantes que ilustravam o pensamento de então. Sobre tapetes do oriente, ensaiei meus primeiros passos das danças que, no futuro, viriam a encantar os olhares e despertar o desejo de jovens pretendentes.
Já hoje, de onde vos escrevo, descoroado estou – o que me dá o direito de lhes confidenciar sobre minha infância quando, debruçado sobre a balaustrada do meu balcão, sonhava em ser um daqueles jovens criados que, furtivamente, se deleitavam sobre os galhos carregados de jabuticaba; corriam pelo pátio, deixando atrás de si, um rastro de poeira saída dos seus corpos; brincavam de esgrima, usando pequenos galhos como espadas disformes e, no carnaval, orgulhosos, pediam-me a pompa emprestada para serem príncipes.

interlóquio 2


O nascimento de Yoko (a 8ª investigadora)

Em Março nascerá a menina Kuramoto. Estamos pensando em chamá-la de Yoko – nome simples que combinará com ela. O seu bercinho já está preparado para recebê-la. Ele está forrado de seda azul da Prússia – tão lindo como o cobalto. Do berço, ela observará o pequeno mundo do seu primeiro quarto. Escolhemos o cômodo mais distante da rua, para evitar a poluição, e o mais próximo de nosso jardim, para que nossa menina possa ouvir o canto dos pardais. Na jardineira, diante da janela, plantamos mudas de marcela, para que ela esteja sempre tranqüila. Seu berço está posicionado ao lado da grande janela para que possa ver o céu. Já a vejo ali, deitadinha na cama, sem dormir, observando tudo para conhecer as coisas, conhecer.
Já se sabe de tudo a seu respeito. Em janeiro do próximo ano, ela já poderá comer um delicioso strogonoff de frango. Este será seu prato predileto. Assim como, o verão sua estação. Em maio, ela dirá sua primeira palavra: Tuiuu. A menina Kuramoto quer nascer para conhecer coisas.

2 comentários:

rcesar disse...

Ficou otimo o dialogo transparente e a lembranca de ultima hora "Ah! Como eu pude esquecer disso!"

silviano disse...

que venha yoko. quero confeccionar o paraíso para recebê-la. que ela seja feliz.

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