Justificativa

Este trabalho é fruto de minhas experiências afetivas, dentro do Projeto Território, Museu Mineiro, 2007.
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Aqui, nada é definitivo. Todos os textos e imagens estão sujeitos a transformações, mutações, amputações ou acréscimos que possam, de alguma maneira, contribuir para a construção dos personagens que vão tomando forma e ganhando vida própria. De alguns deles, já ouço as vozes; de outro, me chega o cheiro.
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Primeiro esboço para uma carta escrita por mim, Dom José - Príncipe do Brasil

Este retrato (abaixo, à esquerda) remete, inclusive, aos conceitos de luxo, pompa, rigor e poder; entretanto, ele não revela nem parte do padecimento, de que fui vítima, por ter nascido um príncipe. O pintor, obviamente, favoreceu minha pele que, de fato, além de não ter sido tão rosada, era acometida de pequenas lesões de fundo psicossomático. Esta pele, constituída de pó-de-arroz e refeita em tinta, ornamenta a vida humana que tive; imortalizando-me de forma sublime.
Fui um menino melancólico, confinado em salões forrados de adamascados, veludos, sedas e brocados e, ao alto, coroados por afrescos exuberantes que ilustravam o pensamento de então. Sobre tapetes do oriente, ensaiei meus primeiros passos das danças que, no futuro, viriam a encantar os olhares e despertar o desejo de jovens pretendentes.
Já hoje, de onde vos escrevo, descoroado estou – o que me dá o direito de lhes confidenciar sobre minha infância quando, debruçado sobre a balaustrada do meu balcão, sonhava em ser um daqueles jovens criados que, furtivamente, se deleitavam sobre os galhos carregados de jabuticaba; corriam pelo pátio, deixando atrás de si, um rastro de poeira saída dos seus corpos; brincavam de esgrima, usando pequenos galhos como espadas disformes e, no carnaval, orgulhosos, pediam-me a pompa emprestada para serem príncipes.

interlóquio 11


A Orientadora Lais
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Debruçada sobre livros e inúmeros outros tipos de veículos informativos, Lais se punha a especular sobre a própria especulação. Quando se cansava de tal atividade solitária, gostava de tagarelar e gargalhar e rir e sorrir e brincar com os amigos. Saciada de prosas e risos, entregava-se ao mais vermelho (ou seria dourado?) dos vícios – o amor ensinado por Eros, ou teria sido Baco? Então, voltava a se debruçar sobre sedas, almofadas e tapetes, junto de seu noivo. E ambos se punham a degustar vinhos e pães e queijos e charutos de folha de uva. E iam se desmanchando e se entesando entre tragos e goles e beijos – muitos beijos!
Apesar de ser uma mulher de raro traquejo e sociabilidade, Lais evitava os chatos, por uma obvia razão – preferia não se desgastar. Assim sendo, foi muito criteriosa ao selecionar aqueles que viriam a integrar o grupo de investigadores de um difícil caso – o desaparecimento de uma valiosa peça do acervo do Museu do Cairo. Um par de pequenas múmias de terracota, s/ data, autor desconhecido e suspeita de ter sido produzida como suvenir, durante a revolução industrial no Antigo Egito.

Era 14 de maio de 2007, quando, o grupo de investigadores aguardava, no calabouço do Museu, a chegada da Dama que abre a pequena porta branca e surge com um largo sorriso nos lábios e um hibisco na lapela de seu guarda-pó. A primeira palavra que pronunciou naquela manhã foi “ONITORRINCO”.
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p.s. Este texto será acrescido de dois parágrafos, no futuro próximo.

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