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O retrato, acima, foi pintado às pressas, pouco antes de minha morte, por um artista que ousou cortar, ao meio, o corpo de Dom José, este que aqui escreve. A pintura provocou grande polêmica na corte, escandalizando os conservadores e despertando o deboche dos anti-monarquistas. Pessoalmente, fiquei encantado diante de tanta ousadia e arrojo.
Antes de me despedir, sinto que devo deixar, aqui, alguns vestígios das minhas memórias e um breve testemunho dos novos tempos que orientam a trajetória do homem contemporâneo.
Desde muito cedo, desenvolvi uma alergia às baixas temperaturas. Durante os invernos, era sempre a mesma peleja para me proteger das correntes de ar frio. Lembro-me bem de uma dessas estações, em que, durante cinco meses, fui proibido de deixar o palácio; sendo que, o mesmo foi munido de lareiras extras. – “Uma extravagância. Este pequeno é, por demais, mimado!”, disse certa vez, a Marquesa do Alto Tejo.
Felizmente, deixei Portugal, ainda muito jovem. Aos dezesseis anos, fui transferido para o cálido Novo Mundo. No Brasil, as crises alérgicas passaram a se manifestar de forma mais amena. Que maravilha de clima têm aqueles brasileiros! E a exuberância das paisagens cariocas?! Que saudade sinto dos passeios de carruagem, durantes as tardes frescas, daquilo que eles chamam de inverno... A visão do morro da Urca, do Corcovado, da Bahia do Flamengo, do exemplar Jardim Botânico e do Passeio Público, onde a aristocracia costumava desfilar seu poder e suas habilidades sociais. Protegidas por adornadas sombrinhas, as damas balouçavam suas saias de seda. Logo atrás, vinha alguma dama de companhia, segurando meia-dúzia de guias de cachorros brancos. Sim, a vida era fútil o bastante para que pudéssemos nos dedicar ao estudo da música, da poesia e do pensamento daqueles que humanizaram, um pouco mais, a vida dos humanos.
Não tivemos o prazer de ver, em vida, os belos objetos que, hoje, viajam pelos céus. A música que ouvíamos era tocada, exclusivamente e ao vivo, para pequenos grupos seletos. Já, hoje, de onde estou, ouço músicas saindo de tantas das janelas incrustadas nas fachadas desses palácios verticais. Cidades gigantescas, ocupadas por milhões de transeuntes perdidos entre uma esquina e outra; carros modernos e velozes, e luzes, muitas luzes iluminando as avenidas, o interior das casas e o asfalto negro. Que beleza!
Os habitantes das cidades são tristes, no entanto, às sextas-feiras, saem às ruas dispostos a se divertir. O figurino desses homens é pobre em formas e descolorido nos tecidos baratos. Quase não fazem uso da maquiagem e caminham desatentos e velozes pelas ruas povoadas. Parecem diferentes dos outros da época em que vivi, mas não são. Eles pouco se visitam; comem sozinhos em restaurantes projetados para atender à pressa em que vivem; moram em casas diminutas, construídas para abrigarem famílias minúsculas, viúvas solitárias, órfãos, solteirões ou pequenos grupos de jovens desgarrados de suas famílias. Eu tenho ciência de tudo o que, ali, se passa e estou certo das diferenças de nuances; no entanto, reafirmo: O homem continua sendo o mesmo ser complexo, perdido e solitário; o único agravante, em minha humilde opinião, é o fato da humanidade ter abandonado os deuses, fato que veio contribuir para uma maior sensação de abandono. E seguimos, atônitos.












